sábado, 3 de outubro de 2009

Hagiografia teórica I: escala de santidade de Papiniano Orvalho

A questão das escalas de santidade é, no plano teórico, um conceito ainda longe de se configurar como consensual. Contudo, numa perspectiva que possa equacionar esta problemática equilibrando limites epistemológicos e pragmatismo, a sua utilidade é indiscutível. Permitem as escalas, sendo estas definidas de forma manifestamente reducionista, a seriação de performances, nomeadamente as de índole milagreira, bem como a determinação do poder absoluto e/ou relativo de determinado santo.
Apenas uma nota sobre estas escalas: todas, pelo menos as validadas nas publicações da especialidade e pelo Colégio Académico para a Hagiografia, apresentam parâmetros referentes à fase de revelação, à fase de maturidade, à capacidade de projecção na comunidade de origem, à capacidade de projecção universal, à performance milagreira e à possibilidade de projectar uma voz polifónica.
Deixemos, hoje, que a nossa atenção se debruce sobre a escala conhecida como "Escala de Santidade de Papiniano Orvalho".
Orvalho, um académico incompreendido por ter feito o seu percurso em pleno território luterano, foi sempre visto como progressista no nosso jardim plantado à beira-mar e encarado como retrógrado na Europa Central. Assenta a sua escala no princípio de que a fase de revelação é fundamental. A performance milagreira, o parâmetro mais recorrente e consensual na europa meridional não é tomada como particularmente relevante. Outro dos vectores destacados por Papiniano Orvalho, novamente, ao arrepio das sensibilidades dos teóricos de raíz mediterrênica, é a consecução de boas acções não intencionais. Compreende-se assim a fraca difusão dos seus intrumentos de análise, bem como do seu aparelho conceptual. Não se compreende que tenha vindo a ser ostracizado enquanto académico e homem de Fé, Esperança e Caridade. Deixamos aqui esta modesta homenagem. Muitos santos não seriam quem são hoje sem o impulso certificador de Papiniano Carvalho.

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