sábado, 29 de agosto de 2009

S. Julião, o Carismático

S. Julião dos Pregos, nome pelo qual veio a ficar conhecido em território luso, era o terceiro filho de Jonathan e Johanna Birdson, residentes em Ramsey, ilha de Man. Julian, nasceu a 29 de Agosto de 1902, em casa da avó paterna, mulher seca e áspera de temperamento, sogra castigadora, mãe ínflexível e esposa árida. Julian sempre foi um rapaz especial e os dois irmãos mais velhos sempre o trataram como uma ignóbil criatura digna de pena. Estaria para chegar o dia de glória, embora o martírio tivesse durado toda a sua infância. Tal nunca o perturbou, não sendo incomum ouvir-se sair de sua pré-santificada boquita um "I don't care, I will suffer but I will be a Saint! No pain, no gain!" Esta consciência, fé quase uterina de que seria santo permitiu que fosse considerado, nas publicações hagiográficas de referência de finais de 1950, como um santo de grau quatro (Na Saints will be Saints, volume 3, foi mesmo considerado o único santo de grau 5 aos cinco anos de idade). A verdade é que Julian foi abençoado com o dom de atrair a si tudo o que o rodeava, num potencial carismático apenas registado anteriormente em Josefina de Avintes ou na santa paraguaia Erica Ayala. Chamavam-lhe, na escola, 'o magnético' ou, na fase da revelação, 'Birdson, o gatuno'. Perseguido, ameaçado e vilipendiado por levar para casa tudo o que era metálico agarrado ao corpo, nomeadamente os pregos e parafusos da carpintaria local, Julian suportou sempre esse calvário com elevação e com um penteado irrepreensíveis. O momento da consagração, que o catapultou ao grau 7,5 de santidade, ocorreu aos seus 14 anos. O maduro, encorpado e viril Julian, ao avistar um cargueiro que derivava inexoravelmente em direcção a Man e a um desastre sem precedentes, subiu ao ponto mais alto da ilha e, em explosão mística sem precedentes, evidenciando todo o seu pragmatismo querigmático, inverteu a sua polaridade e repeliu o barco para o mar alto. Embora tivesse inicialmente sido acusado de arrancar as ferragens de portas e janelas um pouco por toda a ilha, o facto de serem as construções maioritariamente em pedra e madeira reduzira os estragos a pouco mais do que meia dúzia de consertos.
Sendo Portugal um país de marinheiros e lobos do mar, a fama de Saint Julian, the Charismatic chegou à Póvoa de Varzim e, posteriormente a Sagres, onde a sua fama como mentor de pescarias memoráveis acabou por se corromper popularmente sendo, já em Paços de Ferreira, conhecido por S. Julião dos Pregos até ao seu progressivo apagamento. Registe-se o enigmático facto de ter sido dado o nome de Saint Julian of Man Crossover ao projecto, nunca saído da gaveta, atribuído ao visionário engenheiro escocês Sean McMettigan: a ligação entre a Grã-Bretanha e a Irlanda através de um sistema de propulsão magnética por monocarril...
Celebra-se a 29 de Agosto o seu dia e façamo-lo como ele gostaria, atraindo tudo a nós. Sugere-se uma peça de ferro ligada a um sistema de baterias alcalinas, produzindo o efeito de um electro-íman espiritual.
Que a sua memória perdure e a sua performance milagreira não nos desaponte.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

São Godofredo de Herllenmeyer 2: a espuma dos dias

Godofredo nasceu à beira de Eggiwill, distrito de Signau, cantão de Berna. Por ali passou a sua infância até ao seu definitivo retiro, na fase adulta, para o território que presentemente corresponderia à Bélgica. Aqui, qual grão de mostarda, foi frutificando em pequenas comunidades, embrião do que, mais tarde, se veio a instituir como Ordo Cisterciensium Strictioris Observantiæ, os Trapistas. Estes, derivando da ordem de Cister, Beneditinos cenobitas, tornaram-se, com o tempo, produtores da melhor cerveja alguma vez dada a conhecer ao mundo. Na origem de tudo isto esteve, indubitavelmente, Godofredo. À época, a má qualidade das águas teria levado a que, mediante a produção de cerveja, se pudesse consumir o essencial líquido num maior grau de pureza. O requinte dos néctares produzidos pelo nosso Santo de Herllenmeyer terá levado à loucura príncipes e reis. Mesmo o Milagre da Batalha dos Láparos ter-se-á devido à visão de um carregamento de barris de Herllenmeyerensis, como era então conhecida por toda a Europa. O respeito e a veneração votados à cerveja de São Godofredo terá conduzido a um estado de proto-heresia, sendo, em muitos cantos da cristandade, conhecido como S. Baco de Herllenmeyer ou S. Dionísio dos Barris. Esta tendência depreciativa não varreu da História um Santo de Grau Sete, na escala de Santidade de Sextus Uniferus, a mais consistente de todas as escalas de Santidade.
Recuperada aqui a sua honra e proclamada a sua glória, Godofredo de Herllenmeyer está presente no dia-a-dia de qualquer apreciador de cerveja. Na presença de uma caneca na qual as qualidades organolépticas superiores estão protegidas pela quantidade perfeita de espuma, é comum ouvir-se, com deleite supremo a exclamação seguinte "Ah! Que Godofreda!".

domingo, 23 de agosto de 2009

Santa Felismina, a Acutilante

Corria o ano de 1733 e, na pequena aldeia de Cativelos, entre Viseu e Guarda, nascia, no seio de família numerosa, Felismina Dourado Peleja. Saudável e hirsuta desde a infância, de Felismina dizia-se se mais parecida ao pai do que à mãe. O pai, Adalberto Peleja, Filho de Josué Peleja e neto de Adalberto Peleja, o 'Velho Peleja", não era mais do que um duro homem do campo, com as suas cabras, os seus cães, as couves, as favas e produtos quejandos que Deus fazia chegar sob a forma de dons da Mãe Natureza. Felizmina era a mais nova dos oito irmãos Peleja: Adalberto, Dionísio, Josué, Felisberta, António, Amaro e Isalinda. Criados na liberdade do ambiente campestre, faziam honra ao nome de familia, gastando muito do seu tempo em querelas e pelejas, das quais não era incomum sairem a sangrar e a sorrir. Felismina e Dionísio eram as excepções nestas contendas: a Dionísio, constantemente etilizado, sobrava-lhe quase nenhuma energia para o que quer que fosse; Filismina orava, todo o santo dia e toda a santa noite. A mãe, Leonela Dourado, mulher robusta de seios voluptuosos, voz extremamente aguda e rosto marcado pela profusão de pêlos grossos e endurecidos pelo passar do tempo e pela dura lida da casa, da horta e da criação dos filhos, olhava para Felismina e comentava, diz-se que com uma irmã gémea: "A Felismina é mas é parecida comigo, porra! O Adalberto tem menos pêlos do que eu e a pequena tem barba que negreja nas bochechitas! Aquilo de tanto rezar faz-lhe mal. Eu parei de rezar aos catorze anos: antes de me casar tinha os pêlos que tenho hoje." "Pois." (Terá respondido a irmã gémea que, alegadamente residia no lar dos Peleja).
O certo é que, no ano de 1749, Felismina, assistindo a uma briga entre os irmãos e um bando de brigões vindos de Vila Cortês da Serra, não se conteve. Jorrava o sangue, empapando o terreiro, e Felismina, interrompendo as suas preces, precipitou-se sobre aquele violento monte de gente que urrava de fúria e dor. A sua chegada não foi notada de imediato mas um simples "Parai gentes do Demo!" terá sido suficiente não apenas para parar a briga. Relatos, de fonte fidedigna, referem claramente que todos os intervenientes na briga se sentiram tomados de uma calma celestial e abraçaram efusivamente Felismina. Foram assim picados, um a um, metodicamente, pelos pêlos acutilantes do queixo e da zona entre o lábio superior e o nariz. Foram assim inoculados com o vibrante temor de Deus e a incontrolável sede de Paz e da Justiça. Consta ainda que o vital e escarlate sangue, espalhado pelo chão, se converteu em frondosos tufos de carqueja, podendo, segundo os mais devotos, sentir-se ainda hoje o aroma a arroz de carqueja com miudos de cabrito em certas épocas do ano, com o vento a soprar de Nordeste.
Nesse msmo ano, a filha de Adalberto e Leonela casou e viveu uma longa vida em Vila Cortês da Serra, continuando o seu trabalho de expansão da paz e da concórdia.
Felismina, a santa do rosto acutilante, a inoculadora da paz celestial é, ainda hoje, em meios muito restritos, invocada com sucesso e glória.
Acutilante, Felismina nunca viu a sua glória celeste reconhecida: faça-se justiça e celebre-se o seu dia, 22 de Março, numa celebração que mostre as virtudes do divinal hirsutismo como mais uma porta para a Salvação.

sábado, 22 de agosto de 2009

São Godofredo de Herllenmeyer 1: questões quase antroponímicas

Sendo o nome original Godfried von Herllenmeyer (1001-1099), filho de pai incógnito e de Gertrud Staff, Godofredo, na grafia lusa, passou a ser conhecido na Península Ibérica apenas em 1128, data da famosa Batalha dos  Coelhos, assim conhecida por ter sido cumprido o invulgar peceito de, durante a entrega ao combate, ser respeitada a vida dos láparos que pululavam no terreno. Terá esta batalha ocorrido perto da povoação hoje conhecida como Vale de Narizes, não longe de Aljustrel. No calor dos recontros, terá o nobre Gil Sezinandes bradado 'Valha-me S. Godofredo', tendo esta prece imobilizado todos os participantes. O inimigo, um mercenário de origem desconhecida respondendo pelo nome de Ruy Mendias terá perguntado 'Qual?'. À resposta do estupefacto Sezinandes 'o de Herllenmeyer, claro!' correspondeu a retirada do inimigo e a oferta de um avultado donativo numa saca tingida de azul.
A razão pela qual se encontram registos no Γερμανικού Κώδικα Άγιοι, datado de 898 e encontrado em Salónica no ano de 1877 (Código dos Santos Germânicos, traduzido da edição grega por Justino Felíciano) referentes a Good O'Fraid Herllenmeyer, homem justo e produtor de cerveja, é ainda difícil de explicar mas, neste capítulo, temos de lembrar que os milagres acontecem. Deixamos, contudo, três possibilidades: a)não se trata do mesmo homem; b)já era santo uns anos antes de ter nascido; c)ainda não foi formulada a terceira hipótese explicativa.

Seguidores