domingo, 23 de agosto de 2009

Santa Felismina, a Acutilante

Corria o ano de 1733 e, na pequena aldeia de Cativelos, entre Viseu e Guarda, nascia, no seio de família numerosa, Felismina Dourado Peleja. Saudável e hirsuta desde a infância, de Felismina dizia-se se mais parecida ao pai do que à mãe. O pai, Adalberto Peleja, Filho de Josué Peleja e neto de Adalberto Peleja, o 'Velho Peleja", não era mais do que um duro homem do campo, com as suas cabras, os seus cães, as couves, as favas e produtos quejandos que Deus fazia chegar sob a forma de dons da Mãe Natureza. Felizmina era a mais nova dos oito irmãos Peleja: Adalberto, Dionísio, Josué, Felisberta, António, Amaro e Isalinda. Criados na liberdade do ambiente campestre, faziam honra ao nome de familia, gastando muito do seu tempo em querelas e pelejas, das quais não era incomum sairem a sangrar e a sorrir. Felismina e Dionísio eram as excepções nestas contendas: a Dionísio, constantemente etilizado, sobrava-lhe quase nenhuma energia para o que quer que fosse; Filismina orava, todo o santo dia e toda a santa noite. A mãe, Leonela Dourado, mulher robusta de seios voluptuosos, voz extremamente aguda e rosto marcado pela profusão de pêlos grossos e endurecidos pelo passar do tempo e pela dura lida da casa, da horta e da criação dos filhos, olhava para Felismina e comentava, diz-se que com uma irmã gémea: "A Felismina é mas é parecida comigo, porra! O Adalberto tem menos pêlos do que eu e a pequena tem barba que negreja nas bochechitas! Aquilo de tanto rezar faz-lhe mal. Eu parei de rezar aos catorze anos: antes de me casar tinha os pêlos que tenho hoje." "Pois." (Terá respondido a irmã gémea que, alegadamente residia no lar dos Peleja).
O certo é que, no ano de 1749, Felismina, assistindo a uma briga entre os irmãos e um bando de brigões vindos de Vila Cortês da Serra, não se conteve. Jorrava o sangue, empapando o terreiro, e Felismina, interrompendo as suas preces, precipitou-se sobre aquele violento monte de gente que urrava de fúria e dor. A sua chegada não foi notada de imediato mas um simples "Parai gentes do Demo!" terá sido suficiente não apenas para parar a briga. Relatos, de fonte fidedigna, referem claramente que todos os intervenientes na briga se sentiram tomados de uma calma celestial e abraçaram efusivamente Felismina. Foram assim picados, um a um, metodicamente, pelos pêlos acutilantes do queixo e da zona entre o lábio superior e o nariz. Foram assim inoculados com o vibrante temor de Deus e a incontrolável sede de Paz e da Justiça. Consta ainda que o vital e escarlate sangue, espalhado pelo chão, se converteu em frondosos tufos de carqueja, podendo, segundo os mais devotos, sentir-se ainda hoje o aroma a arroz de carqueja com miudos de cabrito em certas épocas do ano, com o vento a soprar de Nordeste.
Nesse msmo ano, a filha de Adalberto e Leonela casou e viveu uma longa vida em Vila Cortês da Serra, continuando o seu trabalho de expansão da paz e da concórdia.
Felismina, a santa do rosto acutilante, a inoculadora da paz celestial é, ainda hoje, em meios muito restritos, invocada com sucesso e glória.
Acutilante, Felismina nunca viu a sua glória celeste reconhecida: faça-se justiça e celebre-se o seu dia, 22 de Março, numa celebração que mostre as virtudes do divinal hirsutismo como mais uma porta para a Salvação.

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